
Em
algumas igrejas evangélicas, adota-se uma posição cessacionista ou
reducionista, reconhecendo apenas pastores e evangelistas como dons válidos
para os tempos atuais, ao passo que os outros dons ministeriais – apóstolos,
profetas e mestres – são considerados restritos ao período da igreja primitiva.
Vamos, a partir de uma perspectiva bíblica conservadora e exegética, demonstrar
por que essa visão é inconsistente com o ensino das Escrituras e com o
propósito ministerial estabelecido por Cristo.
1.
A Continuidade dos Dons para a Edificação da Igreja
Efésios 4:11-13 estabelece claramente que Cristo deu cinco dons ministeriais à Igreja.
No
versículo 13, Paulo apresenta a razão e a duração desses dons:
"Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo."
Explicação Exegética:
A
expressão "até que" (ἄχρις οὗ,
achris hou) implica uma continuidade dos dons até que a Igreja alcance a plena
maturidade espiritual e unidade em Cristo. Esse objetivo não foi cumprido na
era apostólica e ainda permanece vigente, o que evidencia que todos os cinco
dons continuam necessários.
A
função de cada dom é complementar: apóstolos estabelecem fundamentos, profetas
direcionam, evangelistas alcançam perdidos, pastores cuidam do rebanho, e
mestres instruem na verdade. A exclusão de alguns dons enfraquece a estrutura
completa que Cristo planejou para a Igreja.
2.
A Natureza e Propósito dos Apóstolos e Profetas
A)
Apóstolos
Algumas
igrejas afirmam que o dom apostólico foi exclusivo dos doze apóstolos e de
Paulo, negando sua continuidade. Entretanto, o termo “apóstolo” é usado de
forma mais ampla no Novo Testamento.
A
palavra apóstolos indica uma função de liderança e missão enviada por Deus. Nos
primeiros anos da Igreja, o termo "apóstolo" não se limitava apenas
aos Doze. Ele passou a ser usado para descrever aqueles que eram enviados por
Deus para pregar o Evangelho e estabelecer igrejas. Nesse sentido líderes
pioneiros, missionários e plantadores de igrejas até hoje são considerados apóstolos.
Além
dos doze apóstolos fundacionais, outros foram comissionados como apóstolos para
expandir a Igreja.
Quem
eram alguns desses outros apóstolos?
(1) Paulo: Referência: Atos 9; Gálatas 1:11-24;
Romanos 1:1
Paulo,
inicialmente chamado de Saulo, era um fariseu zeloso e perseguidor dos
cristãos, como vemos em Atos 8:1-3. Após sua dramática conversão no caminho de
Damasco (Atos 9:3-19), ele se torna um dos apóstolos mais influentes e
missionários fervorosos do cristianismo primitivo, especialmente entre os
gentios.
Em
Gálatas 1:11-12, Paulo descreve que o Evangelho que pregava não veio de homens,
mas por revelação direta de Jesus Cristo, o que reforça sua autoridade como
apóstolo, um título pelo qual ele se apresenta várias vezes em suas cartas
(Romanos 1:1, 1 Coríntios 1:1). Paulo escreveu uma grande parte do Novo
Testamento, incluindo Romanos, Coríntios, Gálatas, Efésios, entre outras
epístolas, que moldaram a doutrina e a prática cristãs.
2. Barnabé: Referência: Atos 4:36-37; Atos 9:26-27;
Atos 13:1-3; Atos 15:36-39
Barnabé,
cujo nome significa "filho da consolação" ou "filho do
encorajamento" (Atos 4:36), era um levita de Chipre que, desde o começo,
demonstrou generosidade e dedicação ao vender um campo e doar o dinheiro aos
apóstolos para a obra da igreja (Atos 4:37). Barnabé foi um importante
companheiro de Paulo em suas primeiras viagens missionárias, onde juntos
pregaram entre os gentios. Em Atos 9:26-27, Barnabé desempenha um papel
fundamental ao apresentar Paulo aos apóstolos em Jerusalém, demonstrando
confiança e promovendo sua aceitação no corpo de Cristo.
Em
Atos 13, ele e Paulo são chamados e enviados pelo Espírito Santo como
missionários, sendo reconhecidos pela igreja em Antioquia. Mesmo quando
surgiram diferenças entre ele e Paulo (Atos 15:36-39), Barnabé permaneceu fiel
ao seu ministério, continuando a servir e encorajar outros, especialmente João
Marcos.
3. Tiago, irmão de Jesus: Referência: Mateus 13:55; João 7:5;
Gálatas 1:19; Atos 15:13-21; Gálatas 2:9
Tiago,
mencionado como um dos irmãos de Jesus (Mateus 13:55), inicialmente não
acreditava em Jesus como Messias (João 7:5). Após a ressurreição de Cristo, ele
se converteu e tornou-se uma figura-chave na igreja primitiva de Jerusalém.
Paulo,
em Gálatas 1:19, refere-se a ele como um apóstolo ao encontrá-lo em Jerusalém.
Tiago foi reconhecido como uma das "colunas" da igreja (Gálatas 2:9)
ao lado de Pedro e João, desempenhando um papel central durante o Concílio de
Jerusalém (Atos 15), onde defendeu a inclusão dos gentios na igreja sem a
necessidade de circuncisão. Ele também é o provável autor da Epístola de Tiago,
que exorta a igreja à fé prática e à justiça.
B)
Profetas
Algumas
igrejas alegam que a função profética cessou com a conclusão do cânon bíblico.
No entanto, o Novo Testamento apresenta profetas após a ressurreição de Cristo:
-
Ágabo profetizou sobre eventos futuros (Atos 11:27-28; 21:10-11).
-
Filhas de Filipe foram reconhecidas como profetisas (Atos 21:9).
Além
disso, 1 Coríntios 14:1 incentiva todos os crentes a buscar o dom de profecia,
reforçando que não há restrição temporal para seu exercício.
A
função profética não é para revelar novas doutrinas (o que cessou com a
Escritura completa), mas envolve edificação, exortação e consolo do povo de
Deus.
3.
Mestres: Um Dom Essencial e Vigente
Embora
algumas denominações incluam "mestres" como subcategoria dos
pastores, a estrutura de Efésios 4:11 faz uma distinção sutil, mas relevante.
No texto grego, a palavra "pastores" (poimēn) e "mestres"
(didaskalos) estão ligadas, mas não são sinônimos. Todos os pastores precisam
ser mestres, mas nem todos os mestres são pastores (ver 1 Timóteo 3:2).
O
Novo Testamento faz referências específicas ao ministério de ensino, como no
caso de Apolo (Atos 18:24-26), que, embora não seja identificado como pastor,
era um mestre das Escrituras.
Romanos
12:7 inclui o ensino como um dom separado, sugerindo que Deus continua levantando
mestres para a instrução do Corpo de Cristo. Portanto, reduzir o ensino ao
ofício pastoral é um erro e priva a igreja de um ministério dedicado à educação
bíblica e doutrinária.
4.
Evangelistas e Pastores: Importantes, Mas Não Exclusivos
Embora evangelistas e pastores sejam essenciais, restringir o ministério da Igreja apenas a esses dois ofícios não encontra fundamento bíblico sólido. Cada dom tem uma função específica para a saúde da Igreja:
Evangelistas focam na proclamação do evangelho aos perdidos, mas não necessariamente têm a função de cuidar do rebanho.
Pastores são responsáveis por alimentar e proteger o rebanho local, mas não possuem, por si só, a capacidade de fundar novas igrejas ou estabelecer doutrinas apostólicas.
Sem
o ministério dos apóstolos e profetas, a igreja local pode se tornar estagnada,
sem direção missionária ou renovação espiritual.
Conclusão
Negar
a operação contínua dos dons de apóstolo, profeta e mestre é desviar-se do
modelo completo e bíblico estabelecido por Cristo em Efésios 4:11-13. Esses
dons são essenciais até que a Igreja alcance a unidade na fé e a maturidade em
Cristo, um objetivo que ainda não foi plenamente realizado.
Reduzir o ministério da Igreja a pastores e evangelistas priva o Corpo de Cristo de uma liderança equilibrada e limita a obra do Espírito Santo. Em vez disso, precisamos buscar a plenitude dos dons ministeriais que Cristo deu para a edificação de Sua Igreja, até que Ele venha.